Colônias espirituais

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18 jul 2011

Por Thiago S. Argolo e Riviane Damásio

Pintura de Jacques Réattu 1760-1833: Der Triumph der Zivilisation ("Os Deuses do Olimpo")

 

Desde a chegada do Espiritismo no Brasil, há décadas, vem se acumulando assustadoramente livros e livros de espíritas e espíritos que estão na prateleira do Espiritismo. Mas basta um leitor mais cuidadoso confrontar o conteúdo com a base da Doutrina Espírita, que atende pelo nome de O Livro dos Espíritos que veremos o choque de conceitos, claramente expressos entre um e outro. O cume deste confronto ideológico de conceitos atende pelo nome de “Colônias Espirituais”.

Os incautos podem então afirmar que tanto numa quanto na outra obra, são retratadas palavras de espíritos, e nada há para validar ou invalidar as afirmações. Entretanto, ao curioso e atento leitor que pretenda se denominar Espírita, não há de ter passado despercebido bem no início de O Evangelho Segundo o Espiritismo – outra obra considerada básica no cerne doutrinário espírita – um capítulo que atende pelo nome de CONTROLE UNIVERSAL DO ENSINO DOS ESPÍRITOS – CUEE.  Temos ali, revelados numa linguagem relativamente simples e inteligível, o caminho das pedras para a validação de uma obra espírita, inclusive e principalmente, o caminho de aferição da própria Doutrina Espírita, que não “caiu do céu” simplesmente, como acontece com tanta literatura fácil no meio.

O CUEE mostra a preocupação dos Espíritos, acatada por Kardec em todo o seu trabalho, do uso de metodologia, razão e bom senso.  O cuidado no aceitar qualquer coisa que venha de um médium ou de um espírito, está refletido no alerta do CUEE e também em toda a obra de O Livro dos Médiuns.

Deparamo-nos então com dois tipos de erros graves: A preguiça de aferir pelo método aquilo que supostamente é revelado como novo e o descaso com o rico conteúdo doutrinário que apesar de não estar fechado, ainda é jovem, e fonte preciosa de estudos e revelações. E não raras vezes, a doutrina é rechaçada pela prática espírita vigente, virando mero objeto de ilustração, supostamente inspirando por aí, supostos “filhos” ou filiados desta doutrina, mas que não trazem em suas obras, colocações e práticas doutrinárias - o fruto que comprovaria seu DNA.

No mais, no capítulo do Controle Universal do Ensino dos Espíritas, temos o alerta tão especialmente perfeito:

Os Espíritos Superiores procedem, nas suas revelações, com extrema prudência. Só abordam as grandes questões da doutrina de maneira gradual, à medida que a inteligência se torna apta a compreenderas verdades de uma ordem mais elevada, e que as circunstâncias INTRODUÇÃO são propícias para a emissão de uma idéia nova. Eis porque, desde o começo, eles não disseram tudo, e nem o disseram até agora, não cedendo jamais à impaciência de pessoas muito apressadas, que desejam colher os frutos antes de amadurecerem. Seria, pois, inútil, querer antecipar o tempo marcado pela Providência para cada coisa, porque então os Espíritos verdadeiramente sérios recusam-se positivamente a ajudar. Os Espíritos levianos, porém, pouco se incomodando com a verdade, a tudo respondem. É por essa razão que, sobre todas as questões prematuras, há sempre respostas contraditórias.”

Como é vida após a morte? Seria a pergunta chave que culmina em tanta controvérsia entre espíritas diversos. Por um lado, defensores do relato dos Espíritos Superiores, Laboratório de estudos psíquicos de Kardec, e outras obras mais antenadas com o Espiritismo, acham graça dos mitos que permeiam as crenças: umbrais, colônias, hospícios, hospitais, verdadeiros elefantes brancos espirituais, que em suma se existissem não justificariam a encarnação, pois sendo cópia do mundo terrestre, desnecessário seria aos espíritos destes mundos encarnarem para sua evolução.

O choque materialista, trava a batalha da razão versus a emoção de evitar conceber um mundo espiritual sem os acessórios terrenos.

Na instrução dos Espíritos da Codificação, concluímos após leitura atenta, que a Terra não é uma cópia do plano espiritual, sendo o mundo espiritual o principal e o material, secundário que poderia até mesmo não existir. Este mundo é fruto das nossas necessidades materiais e orgânicas enquanto espíritos encarnados, desnecessário, portanto, ao espírito desencarnado, cujo foco é o seu progresso intelectual e moral.  O ambiente terrestre também pode ser concebido como o laboratório onde iremos colocar em ação vivencial os nossos avanços.  Se em erraticidade tivéssemos uma cópia da terra, encarnar seria supérfluo e desnecessário. Não haveria motivo para encarnar, se no mundo espiritual apresenta as mesmas condições materiais para se evoluir.

Em certa literatura que se denomina Espírita, lemos:“O Umbral – continuou ele, solícito – começa na crosta terrestre. É a zona obscura de quantos no mundo não se resolveram a atravessar as portas dos deveres sagrados, a fim de cumpri-los, demorando-se no vale da indecisão ou no pântano dos erros numerosos.” (...) “O Umbral funciona, portanto, como região destinada a esgotamento de resíduos mentais; uma espécie de zona purgatorial, onde se queima, a prestações, o material deteriorado das ilusões que a criatura adquiriu por atacado, menosprezando o sublime ensejo de uma existência terrena."

Entra então o conceito de existir. Será Existência "real/material" ou existência "psíquica"? Segundo O Livro dos Médiuns, nos redutos espirituais não há existência concreta, são de curta duração, transitórias, fluídicas... O Livro dos Espíritos afirma que não existe purgatório e nenhum local destinado a penas ou sofrimentos, o que existem são aglomerações por afinidades de Espíritos ainda apegados à matéria. Necessidades materiais apenas são contempladas em mundos materiais e não num contexto espiritual.

Temos então, vários mundos materiais, prontinhos para serem sugados/desbravados/obsedados por espíritos ainda apegados à matéria, que não precisam demandar tempo e esforço em criarem clones terrestres deste à moeda até os trambolhos habitacionais.

Os espíritos em erraticidade e encontram numa dimensão invisível ao nosso olhar racional, mas tecnicamente podem estar aqui do nosso lado, se ainda apegados aos nossos impulsos primários e muito distantes se avançados em sua evolução.

Cabe-nos entender principalmente que o caminho evolutivo é longo e penoso. Não só para os que desligados do corpo terrestre, caminham para o fim destinado a todos os espíritos – o da purificação – quanto aos que se encontram neste intervalo encarnatório, em lutas quixotescas contra as páginas de Kardec e dos Espíritos da Codificação que tão bem ilustram nossas dúvidas e anseios do porvir. Duvidas estas embaçadas pelos nossos olhos que se recusam a ver e nosso orgulho se recusa a entender.

 

REFERÊNCIAS

KARDEC, Allan, O Livro dos Espíritos – 1857. Tradução Ed. Lake, 1995, Herculano Pires

KARDEC, Allan, O Evangelho segundo o Espiritismo - 1863, Tradução Ed. Lake, 2003, Herculano Pires

XAVIER, Chico , Nosso Lar - Ed. Feb, 1944 - 45ª edição

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Comentários

imagem de Anônimo

A razão diz claramente que

A razão diz claramente que existe sim colonias espirituais. Inconcebível é acreditar que nós, por sermos imperfeitos e ainda ligados duramente a matéria, venhamos na passagem para o plano espiritual ficar a esmo no nada.

imagem de Nilson Nardaci

Quando se fala de assunto tão

Quando se fala de assunto tão sério como a nossa sorte após à morte,sinto ainda um vazio enorme,pois sabemos não existir as tais colonias e sendo assim me pergunto:onde realmente ficaremos? Destruídas pelo raciocínio que foram as tais colonias resta-nos estudar novos autores que nos possa trazer mais informações com respeito à nossa situação além-túmulo. Gostaria se possível me fossem indicadas obras que me elucidassem dúvidas acerca do futuro espiritual,pois as obras da codificação são a meu ver muito sintetizadas,não me permitindo uma visualização da realidade.Abraços e desde já muito grato.

imagem de Braulio Alves

Respeitando, primeiramente a

Respeitando, primeiramente a opinião dos demais irmãos mas não vejo na codificação espíria nenhum ponto contrário à existência de colônias espirituais e sim muitos argumentos favoráveis. Não foi Chico Xavier o primeiro a falar à respeito de sua existência mas o próprio Allan Kardec em obras como "O Céu e o Inferno" e "A Gênese" toca claramente nesses pontos e de forma favorável a existência de tais colônias. Sou a favor do zêlo doutrinário mas contrário à objeções pouco fundamentadas. Indico a leitura de um trabalho de Paulo Neto (As Colônias Espirituais e a Codificação) que é de muito proveito para quem quer se esclarecer a respeito desse tópico. 

 

Paz e Luz!

imagem de Lázaro Saluci Ramos

"Falha no engano"

Gostei do seu texto, penso ser um texto preparado por alguém que realmente estudou a codificação. Contudo não me convence com relação a existência de locais onde os espíritos permanecem em seu estado de erraticidade.

Kardec é preciso quando deixa bem claro a necessidade de estudarmos tanto as obras Espíritas quanto as obras que não são Espíritas. Eis então a necessidade do estudo minucioso das obras que você denomina serem erroneamente atribuídas ao seio Espírita para que compreenda a mensagem que elas buscam trazer.

Talvez sejam interpretações diferentes que ocorrem em tantas discordâncias do NEFCA com relação as obras que se denominam complementares a codificação.

Concordo quando se diz que devemos tomar cuidado com as obras que se auto-denominam Espíritas, existem autores que realmente abusam da criatividade e acaba dando tons dogmáticos, ritualísticos e até fictícios a doutrina dos Espíritos, contudo creio que até o movimento Divinista de Osvaldo Polidoro deve ser estudado com precisão para que ao menos seja produtor de senso crítico, quando não se permite conceber uma visão condizente com a verdade.

Um grande abraço, gosto do material produzido pelas pesquisas e estudos do NEFCA, apesar de haver algumas discordâncias respeito e reconheço o quanto é produtivo o estudo desse material.

imagem de Deuteronomio

Guerras internas

Espíritas querendo através do seu raciocínio desclassificar a crença de outros espíritas. Como se sentem quando alguns cientistas através de suas teorias afirmam que o espírito não existe?

imagem de Espírita

Ao amigo que indagou

Ao amigo que indagou sobre para onde vão os espíritos de luz e o obsessores? Primeiramente, não entendi, vc está dizendo que mesmo com todas as provas mostradas e todos os argumentos aqui mostrados vc constatou e insistiu que para evoluir é preciso de prender a matéria? Amigo... Lhe é necessário mais estudo. Enfim, respondendo calma e educadamente à sua pergunta, o seu raciocínio parece limitado, não ficam juntos, logicamente. Ficar no vazio? kk desculpe mas sou obrigado a rir, ficam em DIMENSÕES DIFERENTES, nas quais é difícil descrever pois só conhecemos a matéria, porém, vc, apegado a matéria, não se diferencia das pessoas que creem no céu e no inferno, tem a visão limitada, mas enfim, cada um vai de encontro aos seus, os espíritos menos evoluídos vão para um meio menos evoluído e os mais evoluídos vão para meios mais evoluídos, e assim por diante. Espero ter esclarecido. ;-)

imagem de Algum espírita

Incrível a persistência na existência de colônias espirituais

No livro "Nosso Lar" o próprio Chico Xavier ou André Luiz para quem acredita que isso foi uma psicografia. Enfim, no próprio livro diz que: pode-se trocar as vestes do espírito (períspirito) a gosto como se tivesse trocando de roupa aqui, mas se você não tem corpo (material) não está sujeito as condições que regem a matéria, logo não sentem frio, então não precisam de vestes porque elas existem para proteger o corpo material frágil e suscetível das variações naturais e biológicas. Ir contra essa lógica é afirmar que Deus é intelectualmente imperfeito, que cria coisas desnecessárias, inúteis. Você conhece o artista pela sua obra. Essas vestes seriam para esconder o sexo? Ora, espírito não tem sexo, eles não precisam se reproduzir. Quanto a “se não há colônia para onde vai o espírito desencarnado?" A questão 1011 do L.E responde essa pergunta: "(...) e como eles estão por toda a parte, nenhum lugar circunscrito, nem fechado, não está destinado a um antes que a outro(...)" ao afirmar nenhum lugar circunscrito, nem fechado” = afirmar que não existe colônias! E Hospitais?! Tenha dó, se o espírito não tem corpo não está sujeito a matéria, logo não fica doente, porque não existem bactérias espirituais, nem vírus espirituais, então não existem infecções espirituais, se existissem o espirito seria perecível e não atenderia a condição de eterno, por consequência impossibilitaria a perfeição e de nada valeria a experiência carnal.

imagem de Icaro Augusto Soares Silva

Sobre nosso Lar....

Pra quem quiser se aprofundar mais nos estudos, temos um VEJ (Vamos Estudar Juntos) dedicado a essa temática.

Vocês podem acompanhar aqui: https://youtu.be/PEzjr535fh0

imagem de wedma da conceição gomes

COLONIAS ESPIRITUAIS.

Excelente...

imagem de Carlos Oliveira

Pratica espirita

Bom dia.
Discordo totalmente de seu artigo, embora reconheça que ele tem bons argumentos.
Mas isso é apenas uma ponte para o contato.
Entendo que poderíamos abordar esta discordância de modo mesquinho e iniciar uma "luta" para ver quem ganha o debate. Isso é chato pra caramba.
Uma outra forma que me parece mais útil seria prosseguir no debate sem o compromisso de estabelecer um vencedor. Os vencedores seriam todos que fizessem parte da troca de conhecimento e pontos de vista. Aqui o primeiro motivo do contato. Me parece que o movimento espirita tem pouco espaço para discordâncias. Pouco debate. Proponho um debate entre nós e quem mais se disponha a discutir esse assunto. Não sei qual ferramenta poderíamos usar. Mas a web é rica em espaços para tal fim. Poderíamos divulgar o debate. Abrir inscrições. Promover ums grande troca de idéias sobre este assunto. O que acha? Eu te desafio! Kkkkkk touchet!
Outro motivo para o meu contato é o seguinte: a duvida a respeito das colônias espirituais deveria ser motivo de um grande numero de consultas por intermédio de vários médiuns diferentes. Um órgão central do espiritismo trataria destas respostas de forma transparente e buscariam os o consenso provisório a respeito do assunto. Não lhe parece que falta um trabalho assim como Kardec fazia quando encarnado?

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